
Linha, gesto caligráfico, nó de lã, raiz seca como mapa, e assim, o convite de Reinaldo Botelho para a individual reconectou-me ao curador Márcio Harum, familiarizado com meu processo de trabalho, minha pesquisa e ação recentes. Márcio aceitou percorrer meandros da água e solo, e pensadoras do Chthuluceno e de narrativas de antecipação até centrar o olhar na peça escultórica de papel Olísipo : “(...) como uma carta náutica mestra se assemelha a um instigante diário de bordo (...) de uma viagem que somente a Renata pode contar”.
“TENTACULAR é o nome tanto de sua pesquisa artística, quanto a busca e seu modo de operar incessantes. Representa o lugar em que os horizontes de terra (raízes), água (mar) e ar (céu) se encontram em uma só direção/ perdição. Sem definição temporal, a ideia fossilizada de um futuro é a sua reciclagem de conceitos, práticas e materiais. Na exposição nos deparamos com o rearranjo do barulho e a pausa para a observação. A sensorialidade do silêncio está abaixo do solo e no fundo do mar. O corpo da artista se mostra ancorado ora em terra, ora solto no espaço de interseção de marear, que vai da costa ao alto mar.”
Curadoria
Tentacular é um ambiente de ação em que Renata Pelegrini revisita expressões de seu fazer e as acolhe em seu percurso recente. Através de fluxos de conexão, o que se percebe é o encontro atemporal de pesquisas que a artista entrelaça em sua prática. A pesquisa RADIX detém a ancestralidade dos coabitantes da terra e do mar, enquanto SENCIENTE apresenta o poroso do feminino. MAPPA revela a busca por direção onde o corpo se percebeu; e já, STRATA acentua o horizonte e a transposição. Por fim, ATTACCATI tenciona o cuidado e os vínculos entre humanos e mais-que-humanos.
A individual na Casa do Olhar Luiz Sacilotto ocorreu de maio a julho de 2023 e reuniu trabalhos de 2008 até então. O espaço, que é patrimônio cultural, acolheu um conjunto de obras fortemente ligadas à ancestralidade e entrelaçou, junto com o repertório artístico selecionado para a mostra, desejos de preservação, consciência e cuidado. Essa combinação de propósitos fortaleceu a ideia de saberes e fazeres pesquisados no meu percurso. Antepassadas que teciam e que cirandavam na natureza, em especial próximo das águas, são lembradas em esculturas de cerâmica e raízes.
A exposição criou um pulmão de trocas e compartilhamentos. ‘Expirou’ o não-saber como propulsor de caminhos em múltiplas direções da minha ação investigativa. E inspirou, em meus encontros semanais com o público, narrativas espontâneas: ora da estória da Casa na vida de cada um. Ora de como a expografia e mobiliário tão acertados da PalavraPalco os instigava. E ora como a presença de TENTACULAR os remetia a tempos diferentes da memória e da ação, à medida que conversávamos.
"Esta série é cortada pelo tempo da pandemia. Folhas de papel unidas por ataduras revelam o tato como marca da atenção com o outro e com a natureza."
Exposição
Conversas


Livro de artista
As páginas que constituem a publicação TENTACULAR são vizinhas umas das outras até que a pessoa que a segura encontre outras afinidades entre as imagens e altere a sequência inicial que lhe foi apresentada. Na liberdade de manipular as páginas soltas está o meu desejo da mistura, do acolhimento para a con-vivência e da crença no potencial de cuidado contido em cada mão. Esse livro de artista quer ser também livro de um ser ativo em seu caráter tentacular.

poema
“deixo-deixo”
em TENTACULAR
segurando com as tuas mãos,
cuidar para que os saberes se entrelacem,
deixar que os sentidos se harmonizem com o respiro do corpo e do planeta,
ouvir do escuro, do fundo do mar, das estrelas, da memória,
e se perceber como uma raiz ao vento,
tentacular